:: abril 23, 2005
Mulher A Dias
O Nikonman, do blog Praça da República em Beja, desafiou-me a fazer um poema em que eu passasse para esse lado misterioso da vida que é ser Mulher... Troquei-me todo, entre X e Y...
de manhã metamorfose foge-me o tempo na lida
latem-me as horas na têmpora
cavalgo a lide do tempo onde tapo o meu lamento
onde lavo os sentimentos em barrelas contratempos
sirvo serva sorvo a vida sirgo a faina desvalida
deixo de amar porque amo devagar amo demais
homem filho e os meus pais
e a roupa e a cozinha
arranco a erva daninha na calçada do cansaço
a salsa dá-ma a vizinha o sal do meu embaraço
salto alto no espaço sonho
e debaixo do braço cai suor no rol diário
e sinto a mão do finório que me apalpa o abandono
no comboio suburbano
reajo sinto o ultraje porque demora a viagem
que demora tanto tanto
e eu sou virgem nesse pasmo nesse andar tão devagar
numa vida sem paisagem sem distância sem desejo
um beijo um só que fosse que me trouxesse o amado
namorado de menina que não fui mas sou ainda
saio na fila de gente sempre em frente sempre à frente
da multidão que me empurra que grita e bulha
que esbulha o meu tempo a contragosto
que eu não gosto desta vida eu não gosto do Sol posto
mas da noite sentir o ar no meu rosto
eu tão nova delicada pardal à beira da estrada
e comida violentada que já sou mulher de amar
mulher de apetecer
assim me dizem me fazem me gritam
e me desfazem de ser só o que eu quiser
e os filhos o consolo o trabalho no meu colo
os calos do desconsolo de me calar sem querer
e saio noutra paragem findo o dia a viagem
o tempo sem vadiagem sem sossego sem aragem
pago a portagem na praça onde a grita me trespassa
de pregões e da fumaça sem ser dona de viver
só labuta e mais labuta
que me força a vida à bruta onde mal brota o viver
ah quem me dera ser flor quem me dera ser a outra
flor embora mas tão puta
que se abrisse a cada insecto
por interesse por afecto
por vaidade por prazer.